segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020


            A Mulher na Janela- A.J. Finn


A Mulher na janela, A.J. Finn, Ed.Arqueiro, 2018, São Paulo.
Título Original: The Woman in the Window,  Harper Colins, 2018.


"Desconfio de que em algum lugar, dentro de você, exista algo de que ninguém sabe." - A sombra de uma Dúvida (1943) ( folha de rosto)

" Como eu ia dizendo: janelas completamente nuas. De modo que o 212, rubro e despido, parece olhar direto para o lado de cá da rua, e eu fico olhando de volta, observando a nova proprietária conduzir seu engenheiro para o quarto de hóspedes. Qual será o problema dessa casa? É nela que o amor se instala para morrer" ( pág. 9)

" - Precisa de mim para alguma coisa antes que eu vá?
  Parece uma frase de duplo sentido, algo tirado de um filme  noir .Como Lauren Bacall em  Uma aventura na Martinica: ' Basta juntar os lábios e soprar' " (pág.19)

"Mais uma Leçon de francês hoje, e , à noite,  Les diaboliques. Um marido cafajeste, uma mulher frágil, uma amante, um assassinato, um cadáver desaparecido. Existe coisa melhor que um cadáver desaparecido?" (pág 25)

"À meia-luz- Ingrid Bergman, mais linda que nunca, gradualmente perdendo  a sanidade mental" ( pág.110)

A Mulher na Janela é uma homenagem ao cinema noir.
O livro é o cinema noir.
A começar pelo título, que é uma referência à Janela Indiscreta, de Hitchcock.
Anna Fox, vive sozinha, sofre de agorafobia e passa grande parte do dia a observar seus vizinhos com uma câmera fotográfica de primeira linha.
A outra parte do dia assiste à filmes e dá consultas pela internet. Psicóloga infantil, também envereda-se a dar conselhos a pessoas adultas as quais apenas conhece pela internet.
E, em uma terceira parte do dia e noite, nem por isso menor, bebe muito Merlot e ingere muitos comprimidos para a depressão, ansiedade e para o tratamento da agorafobia.
Seu médico a visita em casa, onde faz sua consulta semanal, sua fisioterapeuta também a acompanha e Anna tem um inquilino no porão, David. 
Conversa com o ex marido Ed, por telefone e com a filha que preferiu ficar com o pai após a separação do casal.
Com a chegada de seus novos vizinhos, a família Russel, ela começa por conhecer o jovem Ethan, o filho do casal, e com ele cria uma espécie de amizade, que logo será reprovada pelo pai do garoto.
Mas quem realmente chama a atenção de Anna é a mãe, Jane.
Chega mesmo a recebê-la em casa, como quem recebe uma amiga de longa data, bebem um vinho, falam sobre a vida, passando uma tarde agradável.
Depois, uma noite, ao separar seus DVDS para assistir, ouve um grito aterrador na casa dos Russel. Através da janela vê Jane ser assassinada.
Telefona para a polícia, para Ed, e a partir daí sua vida se torna um carrossel macabro beirando a insanidade.
Entre o que Anna Fox viu, ou pensa que viu, e os depoimentos dos Russel há um grande vão.
Vão este que terá que ser preenchido se o leitor quiser saber a verdade por trás das janelas de Anna Fox.
Uma trama que nos início no leva a duvidar realmente da veracidade dos fatos, para no final, nos revelar algo que é muito explorado tanto nos livros de suspense, como nos filmes do mesmo gênero.
Um bocado clichê se não fosse a forma como é escrita, bem escrita.
Altamente recomendável aos amantes de um bom suspense, e de bons filmes 
sobretudo de Hitchcock.
O livro foi adaptado para o cinema com atuações de Julianne Moore, Amy Adams e Gary Oldman



Confira o trailer:


O autor, escreveu o livro sob um pseudônimo, seu nome verdadeiro é Daniel Mallory, conheça um pouco sobre ele nos artigos abaixo:

segunda-feira, 8 de julho de 2019


A Aventura do Pudim de Natal- Agatha Christie





A Aventura do Pudim de Natal, Agatha Christie, L&PM Pocket, 2014,Rio Grande do Sul
Título Original: The adventure of the Christimas Pudding , 1960, Collins Crime Club


" Poirot se arrepiou novamente. A ideia de uma mansão inglesa do século XIV o enchia de apreensão. Muitas foram as vezes que ele penara nas históricas casas de campo da Inglaterra. Olhou para seu apartamento moderno e confortável, com aquecedores e equipamentos de última geração para eliminar qualquer possibilidade de correntes de ar.
_ No inverno- ele disse com firmeza- , eu não sao de Londres." (pag.10- A aventura do pudim de Natal)

" - Uma arca espahola- ele refletiu- A senhorita pode me dizer, srta. Lemmon, o que é exatamente uma arca espanhola?
- Creio, monsieur Poirot, que seja uma arca origniária da Espanha.
- Esta é uma suposição sensata.Logo, a senhorita não tem conhecimento algum sobre o assunto? (pág. 63- O Mistério da Arca Espanhola)

" - Nesse meio tempo- continuou- todos os moradores da casa já deram suas versões dos fatos , o senhor Leverson entre eles, e na versão dele o que consta é que chegou já tarde e foi dormir sem ver o tio.
- Foi isso que ele disse.
_ E ninguém viu motivos para duvidar- refletiu Poirot- , exceto, claro, Parsons. Então aparece um inspetor da Scotland Yard, inspetor Miller, a senhorita disse, não? Eu o conheço. Cruzei com ele uma ou duas vezes no ano passado. Ele é o que chamam de um sujeito arguto, um investigador, um farejador." (pág.115- Poirot sempre espera)


" Hercule Poirot jantava com seu amigo Henry Bonnington no Gallant Endeavour, em King's  Road, Chelsea.
O senhor Bonnington tinha predileção pelo Gallant Endeavour . Gostava da atmosfera tranquila e da comida "simples" e "inglesa" e sem "bizarrices culinárias" (pág 189- Vinte e quatro Melros)

" A porta só abriu depois do intervalo de tempo correto.
Um exemplar perfeito da espécie mordomo estava parado contra a luz do hall.
- O senhor Benedict Farley está?- perguntou Hercule Poirot.
O olhar impessoal o observou da cabeça aos pés, de maneira inofensiva, porém, eficiente. 
En gros et en détail, pensou Hercule Poirot" (pág. 209- O sonho)

" Greenshaw foi o homem que a construiu?
_ Foi. Em 1860 ou 1870, por ai. O grande acontecimento local da época. Um garoto sem nada que construiu uma enorme fortuna. A opinião local divide-se quanto ao motivo que o levou a construir essa casa , se foi para mostrar a opulência da riqueza  ou para impressionar seus credores. No segundo caso não os impressionou. Ele foi á falência do mesmo jeito, ou quase isso. Daí o nome , a extravagância de Greenshaw." (pág. 241- A Extravagância de Greenshaw)

Esta deliciosa coletânea de contos , segundo a própria autora, foi para relembrar os antigos Natais que passava no Norte da Inglaterra em sua juventude.
São contos de certa forma leves, porém bem elaborados, como tudo o que ela escreve.
Em um total de seis contos, o "carro chefe" por assim dizer, posto que a autora considera esta reunião de contos uma verdadeira ceia, sendo os contos os pratos, é sem dúvida A aventura do Pudim de Natal, pois não somente é o conto mais interessante, como também aquele que remete às antigas tradicões natalinas nas casas de campo britânicas.
Poirot, muito a contragosto, aceita um convite para passar o Natal em uma antiga casa do século XIV, com receio de morrer ao frio, mas encontra ali um caso interessante de um roubo de uma jóia meticulosamente escondida dentro de um dos pudins natalinos.
Os demais contos também giram em torno de pequenos furtos, assassinatos, muita tradição gastronômica e falsas pistas para enganar o leitor.
Com esta pequena pérola gastro-literária, Agatha Christie presenteia o leitor com sua sagacidade, bom humor e raciocínio lógico sempre  presentes nas demais obras, porém de maneira mais descontraída, como se contasse histórias à beira da lareira na noite de Natal.
Enjoy!

quinta-feira, 6 de setembro de 2018



                 A Garota no Gelo- Robert Bryndza




A Garota no gelo, Robert Bryndza, Gutenberg, 2017, Belo Horizonte.
Título original: The Girl in the Ice.



The Girl in the Ice, Robert Bryndza, Paperback, 2016, London UK

" Com o coração disparado, ele esticou a mão e apertou-o gentilmente. Estava frio e borrachudo. Havia geada agarrada na unha,que estava pintada de roxo escuro. Ele puxou a manga de seu casaco, colocando-a por cima da mão, e esfregou o gelo ao redor dele. A luz do iPhone lançou um verde sombrio sobre a superfície congelada, e logo abaixo ele viu uma mão esticada na direção de onde o dedo atravessava o gelo. O que devia ser um braço, desaparecia na direção das  profundezas" (pág. 15)

" - A mãe de Andrea é eslovaca. Assim como você...Achei que isso poderia ajudar as coisas, um policial com quem a mãe dela pudesse se identificar." (pág.21)

" Na imagem, Andrea estava subindo no vagão do trem com uma perna nua e bem torneada. A expressão fixa em seu rosto era de raiva. Estava vestida para arrasar, de jaqueta de couro apertada sobre um vestido preto curto, com sapatos de salto alto rosa e uma bolsa clutch que combinava com eles" (pág.25)


" À medida que os dias passaram, a figura estava ficando mais confiante, quase convencida de que o corpo de Andrea não seria encontrado O inverno acabaria, e com o calor da primavera, ela apodreceria; até que sua máscara de beleza tivesse sumido e ela ficasse mais parecida com quem realmente era." (pág 62)


" Acima dela estava escrito com pincel atômico vermelho: VOCÊ É IGUAL A MIM, DETETIVE FOSTER. CADA UM DE NÓS MATOU CINCO"(pág.165)


"Talvez aquele fosse o tal caso. Aquele que escapa.Todo policial era assombrado por um caso não solucionado.Ela bateu a cinza no cascalho e um miado anunciou que havia, debaixo do banco,um gato preto e grande que saiu do seu esconderijo e se esfregou nas pernas dela." ( pág.298)

A Garota no Gelo...parece que nos últimos anos  títulos envolvendo "Garotas" em algum lugar, ou, com um adjetivo complementar, tem sido uma constante ; por exemplo: A Garota do Lago, A Garota no trem, A Garota Exemplar...muito embora dos títulos aqui citados, somente The Girl in Ice, The Girl on a train é que têm a palavra Garota em seu título original.
A Garota no Lago tem o título original de Summit Lake e A Garota Exemplar, Gone Girl. Coisa de tradutores...enfim...
A Garota no Gelo, é a estreia de Robert Brindza no romance policial, ele já havia publicado uma série de livros no gênero comédia, Coco Pinchard que depois transformou-se em uma série televisiva.
Penso que sua estreia no gênero policial foi bem interessante, criou sua "Hercule Poirot", Erika Foster, a qual participará dos livros subsequentes na saga da detetive que perdeu o marido recentemente, não costuma ser muito ortodoxa no cumprimento de seu dever, mas é  a melhor detetive em sua unidade.Sua nacionalidade é eslovaca, mas casou-se com um britânico, de onde vem seu sobrenome Foster.
O caso é perturbador desde seu início, pois Andrea Douglas Brown é encontrada por Lee, em um lago congelado durante o árduo inverno londrino.
Por ser filha de um influente empresário, o pai tenta de todas as formas desviar as atenções para o terrível crime, mas a Unidade em que Erika trabalha não desistiu de procurar as evidências. Nem tampouco de relacionar o assassinato de Andrea com casos não resolvidos de prostitutas da Europa de Leste.
O livro tem descrições do inverno muito boas, da neve a cair, das rajadas de vento, que pouco a pouco vão introduzindo o leitor nos cenários gélidos onde a narrativa se desenvolve.
Os personagens, compostos sobretudo por policiais, a família da vítima, e amigos desta, são consistentes, têm uma vida social para além do trabalho, e isto dá uma folga ao leitor quando o rumo das investigações beira o sombrio e macabro.
Por ser o primeiro romance policial do autor, talvez algumas poucas pontas soltas ficam por amarrar, mas nada que comprometa a leitura vigorosa, sobretudo depois do capítulo 60 no qual as ideias de Erika Foster vão tomando forma e ela consegue finalmente descobrir o assassino de Andrea.
O livro passa pelas pistas falsas que são lugar comum no gênero, mas ao contrário de A Garota do Lago , Charlie Donlea, não enganam o leitor, apenas o despistam por alguns capítulos, para depois deixarem que ele faça suas próprias conjecturas sobre quem seria o assassino.
Confesso que não me passou pela cabeça o verdadeiro culpado. Pensei em dois membros da mesma família mas não nele. Surprise, surprise!
Penso que o autor começou muito bem em seu débuts como autor policial,mas tenho uma ressalva a fazer.
O tradutor Marcelo Hauck foi muito infeliz na tradução, usou gírias , palavras apenas ditas na oralidade , traduziu orações inteiras com erros gramaticais, até entendo que quando há diálogos informais, o vocabulário é mais leve, mas não é necessário perder a elegância, meus alunos de Ensino Médio escrevem melhor que ele. Vou citar alguns exemplos mais abaixo. Lamentável. Se este senhor for o tradutor de toda a série Erika Foster, vai ser difícil ler os próximos, isto sem contar que para a reputação do autor não calha nada bem.
Mas recomendo darem uma boa olhada no livro e conhecerem de perto os segredos da GAROTA NO GELO.
BOA LEITURA!

Trechos : (...) " eu devia ter percebido, mas achava que ela ia parar depois que nós casássemos; e depois a gente ia embarrigar"

" Marsh catou a menina que estava chorando e beijou o rosto dela..."

" Ela preferia muito mais ir para um hotel durante alguns dias, enquanto procurava um apartamento, do que deixar que Marsh sentisse pena dela"

"(...) Anda, acorda elas- Ivy xingou"

" - E você pirou o cabeção ,né?"

" Senhor, se me chamou aqui para me meter o ferro,prefiro que seja feito em particular"

Para quem entende o mínimo de gramática e norma culta reconhecerá estes e outros erros cometidos na tradução.
Depois quando eu digo aos meus alunos que pela minha experiência na Europa, os europeus preferem ler os livros no original aos traduzidos no Brasil, ficam estarrecidos. Aí está o porquê.


O autor






O tradutor

domingo, 26 de agosto de 2018



                            A Garota do Lago- Charlie Donlea





A Garota do Lago, Charlie Donlea, Faro Editorial, 2017, Rio  de Janeiro.
Título Original: Summit Lake, Kensigton, 2016, NY


Summit Lake, Charlie Donlea, Kensington, 2016, NY


" Becca  Eckersley
  Summit Lake
 17 de fevereiro de 2012
 A ocasião de sua morte.
A NOITE DE INVERNO CAIU NO EXATO MOMENTO EM QUE Becca Eckersley deixou o café . Caminhando pelas ruas escuras  de Summit Lake , ela enrolou o cachecol em torno do pescoço para se proteger do frio. Sentia-se bem  depois de ter falado com alguém, pois tornou aquilo real. A revelação de seu segredo de longa data aliviou a pressão, permitindo-lhe relaxar uma pouco. Enfim, Becca acreditou que tudo daria certo." (pág. 13)

"Três batidas sonoras a assustaram.. Ela consultou o relógio e se espantou- ele só deveria chegar no dia seguinte. Ao menos que quisesse fazer uma surpresa, o que costumava acontecer.

Becca correu até a antessala e puxou a cortina para o lado.Ficou confusa com o que viu. Nessa confusão, seus pensamentos se perderam. (pág. 14)

"- Disse. Mas descobrir um segredo jamais é a chave. Descobrir porque um segredo é um segredo é o que leva a algum lugar. (pág. 120)


" Mas Kelsey nada disse. De seus muitos anos de experiência, ela se dava conta da obra de um homem perturbado. Mais do que isso: estava fascinada por ela." (pág.276)



Ora muito bem...

Aqui está um livro controverso.
Primeiro, devo admitir, que um autor novo para mim há tempos não me prendia ao livro de forma a fazer uma verdadeira maratona para terminar de lê-lo, aguçada não somente pela curiosidade, mas também por sua escrita fluída e bem elaborada .
Charlie Donlea escreve bem, narra bem, porém toda a narrativa desde a primeira página até o momento em que nós leitores, descobrimos a verdade por trás do segredo, desta vez o segredo do autor, não o da personagem, cai por terra pois nos sentimos "traídos" por ele.
É como se estivéssemos sendo enganados desde a badana do livro até o momento da descoberta engenhosa, porém desonesta que o autor se nos apresenta.
Quando vocês lerem, irão entender.
No geral o livro tem um bom enredo, personagens psicologicamente bem estruturados, a narrativa flui, os cenários são bem descritos, há dois tempos cronológicos paralelos muito bem interligados por sinal.
A história de Becca começa em 2012 precisamente no dia de sua morte. Atacada brutalmente em casa dos pais em Summit Lake, nos dá a entender que conhecia seu agressor, e assim começam as investigações através da polícia local e da repórter  Kelsey, que no passado fora agredida seriamente mas escapara da morte. Para ela, este é um caso "pessoal".
Em seguida somos transportados para o Campus da Universidade George Washington , onde Becca estudara Direito e tomamos ciência de seu cotidiano, suas amizades, "affairs", e finalmente seus segredos mais profundos.
Pois de todos esses segredos, um deles a levará ao desfecho fatídico do dia 17 de fevereiro de 2012.
Como referi no início, o livro é muito bem escrito, pictórico até, mas se o leitor for como eu que praticamente atravessa o portal entre a realidade e o mundo que o livro encerra, sentir-se -á enganado, traído, pelo fato de Charlie Donlea não ter jogado às claras com seu público.
É exactamente como o trecho citado acima na página 14 : "Ficou confusa com o que viu. Nessa confusão, seus pensamentos se perderam..."
Até entendo a intenção dele, mas a maneira como isto foi colocado no livro, deixa o leitor chateado.
Recomendo!

Assistam ao book trailer:



segunda-feira, 20 de agosto de 2018


            A Assombração da Casa da Colina- Shirley                            Jackson




A Assombração da Casa da Colina, Shirley Jackson, Suma, 2018, Rio de Janeiro
Título Original: The Haunting of Hills House.




The Haunting of Hill House, Shirley Jackson, Viking, 1959, NY

"NENHUM organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior.; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta.Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que que entrasse ali, entrava sozinho." (pág 7)


" Eleanor \Vance  tinha trinta e dois anos quando foi à Casa da Colina. A unica pessoa do mundo que odiava de verdade , agora que a mãe tinha falecido era a irmã. Desgostava do cunhado e da sobrinha de cinco anos e não tinha amigos." (pág.10)

" Em torno deles a casa meditava, se assentando e se agitando com um movimento que mais parecia um arrepio" (pág.89)

" Vá e encare seu amante,
  Vá e encare seu amante,
  Vá e encare seu amante,
  Como já fizemos antes....
(...)
  
 Nenhum deles ouviu, ela pensou com alegria; ninguém ouviu, além de mim" (pág.216)


"No live organism can continue for long to exist sanely under conditions of absolute reality; even larks and katydids are supposed, by some, to dream. Hill House, not sane, stood by itself against its hills, holding darkness within; it had stood so for eighty years and might stand for eighty more. Within, walls continued upright, bricks met neatly, floors were firm, and doors were sensibly shut; silence lay steadily against the wood and stone of Hill House, and whatever walked there, walked alone."

O trecho acima é do livro original e corresponde à primeira citação que abre os trechos página 7.
Ora bem, mais uma vez constato o que passo a vida a dizer aos meus alunos de leitura e literatura: traduções brasileiras são lixo.
Deturpam totalmente o livro, prejudicando o entendimento correto da narrativa, dando margem à falsas interpretações.
Por exemplo é diferente se dizer que o que "entrasse ali, entrava sozinho" e " o que andasse ali andava sozinho" que é o caso neste livro: quem andava ali,andava sozinho dentro da casa.
Já fui pesquisar a edição portuguesa e o que temos é :" e o que quer que por lá andasse,andava sozinho"
A ficha técnica abaixo é da edição da qual tirei o fragmento destacado em azul. Infelizmente minha edição portuguesa foi dada a emprestar a uma amigo, que ainda a tem  consigo e tive que usar a edição brasileira para a resenha. 
Ao fim da resenha, deixo o link do site onde o leitor poderá consultar pelo menos o primeiro capítulo decentemente sem comprometer o que de facto o autor escreveu.

A Maldição da Casa da Colina, é um daqueles livros que não podem faltar na biblioteca de um verdadeiro admirador de obras de horror psicológico.
Porque é disso que se trata. Não pensem que vão encontrar aqui o sobrenatural como se costuma ver nos filmes actuais, materializações, poltergeists, ou fantasmas perambulando pela casa.
Em 1959, quando livro foi lançado, causou bastante impacto,pois livros desta estirpe estavam a começar a ganhar força. Bem anterior a ele, Henry James em seu The turn of the Screw, já havia tocado no delicado assunto da sexualidade reprimida da preceptora em relação a seu patrão, e Shirley Jackson, volta a despoletar o assunto no presente livro.
Por trás de uma história em que o Dr. Montague especializado em estudos de fenômenos paranormais, reúne mais três pessoas Eleanor, Theodora e Luke, para passarem três meses na Casa da Colina a fim de constatarem fenômenos paranormais; está a história de Eleanor e suas frustrações inclusive sexuais.
Ora, já é sabido, que energias estagnadas são perigosas. 
Eleanor tem uma vida social miserável. Depois de onze anos a cuidar da mãe enferma, não teve muito tempo para grandes amizades.
Nada de importante e extraordinário aconteceu em sua vida, até entrar na Casa da Colina.
Pela primeira vez ela tem a percepção de que tem uma vida, tem algum valor, e é necessária.
 A Casa a quer, a chama, e quando ela se apercebe do quão importante isto é para si, não quer mais ir embora. Deseja ficar para sempre onde se sente em casa pela primeira vez na vida.
Alheia aos supostos fenômenos paranormais que a casa vai apresentando, ela quer ali estar. "Jornadas terminam no encontro de amantes" é uma das frases mais repetidas por Eleanor ao longo da narrativa. E penso que seu maior "amante" foi a Casa.
Em contrapartida, Theodora, seu oposto, representa a beleza, vida, exuberância, capaz de encantar Luke, o jovem herdeiro de Hill House, a ela é lhe indiferente se a Casa é assombrada ou não, pois tem para onde voltar quando a estadia terminar. Todos têm. Menos Eleanor, por isso a Casa da Colina será seu lar para sempre...
A loucura e a sanidade é tema recorrente na obra de Jackson, e aqui, neste livro a sanidade de Eleanor é quebrada no decorrer do tempo que  ela passa dentro e nos arredores da Casa.
Foi a escolhida por ser a mais frágil, desequilibrada, susceptível e solitária.
É exactamente este tipo de pessoas e energias que são "escolhidas" para liberar os fenômenos ditos paranormais.
Tudo é energia estagnada. Believe me.
Boa leitura! Aviso que a narrativa é lenta, sublimar, nem todos apreciarão, mas andem lá.... venham visitar Hill House....

Deixo aqui o link do site WOOK, para consulta da edição portuguesa

https://www.wook.pt/livro/a-maldicao-de-hill-house-shirley-jackson/21418991

O livro teve duas adaptações para o grande ecrã, uma em 1963, a mais interessante, e outra em 1999, duas longas horas de pura perda de tempo.
O canal Netflix já anunciou que está a preparar sua adaptação do livro, ainda sem estreia prevista.

Imagens da adaptação de 1963











 Imagens da adaptação de 1999:







Confiram o trailer de 1963: 


Confiram o trailer de 1999 no Link e assistam a chegada de Theodora à Mansão Hill House

Link:https://youtu.be/xsOVtbsMKtA



Confiram o audio book:



domingo, 22 de julho de 2018



              Estranha Presença-Sarah Waters




Estranha Presença, Sarah Waters, Record, 2010,Rio de Janeiro.
Título original: The Little Stranger.









The Little Stranger, Sarah Waters, Riverhead Books , 2009, UK


"Vi Hundreds Hall  pela primenria vez quando tinha 10 anos. Foi no verão depois da guerra quando os Ayres ainda tinham quase todo o seu dinheiro e eram gente importante no distrito." (pág.7)

" - Oh doutor, não é como uma casa normal, não é mesmo! É grande demais! A gente tem que andar uns 2 quilômetros para chegar a qualquer lugar. E é tão silenciosa que causa arrepios." ( pág.17)

" - É tão surpreendente assim, com essa família tão sombria? Afinal, a mente subliminar tem muitos cantos obscuros, infelizes. Imagine algo se soltando de um desses cantos." ( pág. 338)

" Nunca tentei lembrar Seeley, de sua outra e mais estranha teoria:de que Hundreds foi consumida por um germe obscuro, uma criatura das sombras, voraz, " estranha presença" gerada pelo inconsciente perturbado de alguém ligado com a própria casa.(...) imagino que o segredo está prestes a me ser revelado.Que verei o que Caroline viu e o reconhecerei. (pág. 441)


Cá estamos nós outra vez ás voltas com uma história de fantasmas.
Tipicamente inglês.
O enredo parece corriqueiro do gênero: uma grande propriedade centenária e decadente, Georgiana, diga-se, uma família sem posses vivendo isoladamente na casa, e uma " estranha presença" que só se faz notar quando quer e para quem quer.
Sarah Waters tem uma escrita fluída, calma, bem situada, sem rodeios desnecessários apesar de alguns capítulos serem longos e descritivos.
Temos o Dr Faraday, médico de família do condado, sendo chamado às pressas para assistir a uma criada da casa ( para usar um termo da época). Desta forma, Faraday é apanhado na teia da casa e da família sem que tenha vontade de escapar.
Apaixonado por Caroline, a filha dos Ayres, tenta ajudar a família a se reerguer, enquanto vai tentando um tratamento ao filho mais velho Roderick, também herdeiro de Hundreds Hall. retornado da guerra, e prestes a perder sua sanidade mental.
Aos poucos, vamos sendo introduzidos no ambiente sombrio e claustrofóbico da casa, seus segredos, revelações e ao relacionamento entre Faraday e Caroline, tão estranho quanto esperado.
O casamento anunciado de ambos, gera dúvidas entre os noivos, como se algo conspirasse para que não se pudessem unir.
A velha propriedade vai dando seus primeiros sinais de que mais alguém ou algo se instalou em seus cômodos, quando o filho mais velho começa a ver e ouvir sons e imagens que supostamente não lá estão, culminando no seu internamento em uma instituição psiquiátrica para nunca mais regressar.
Como em "And then there were none"de Agatha Crhistie, um a um os membros da família são levados a cometer atos dos quais não poderão mais safarem-se.
Mas ao contrário do livro citado, resta um, que luta incessantemente para descobrir o que de fato, ocorreu em Hundreds Hall bem debaixo do seu nariz, como se costuma dizer.
Em algumas passagens o romance lembra um outro grande escritor Henry James, em seu inesquecível " The turn of the Screw" quando em tom de conversa o doutor Seeley tenta alertar Faraday para as manifestações psíquicas com origem em sentimentos reprimidos, em contraposição à história de que um fantasma habitaria a casa.
Interessante a intertextualidade, ainda que implícita, pois realmente nos faz pensar se os fenômenos ocorridos na casa não foram libertados por anos e anos de repressão por um dos membros da famíla.
Recomendo a leitura com uma boa chávena de chá e biscoitos amanteigados.


Recentemente o livro foi adaptado para o grande ecrã, com estreia prevista para este ano. No elenco temos Ruth Wilson no papel de Caterine e Domhnall Gleeson como Dr. Faraday. Veja o trailer:





Assista também ao Booktrailer sobre The Little Stranger





Cartaz de lançamento do filme:


Banda Sonora: