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segunda-feira, 20 de agosto de 2018


            A Assombração da Casa da Colina- Shirley                            Jackson




A Assombração da Casa da Colina, Shirley Jackson, Suma, 2018, Rio de Janeiro
Título Original: The Haunting of Hills House.




The Haunting of Hill House, Shirley Jackson, Viking, 1959, NY

"NENHUM organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior.; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta.Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que que entrasse ali, entrava sozinho." (pág 7)


" Eleanor \Vance  tinha trinta e dois anos quando foi à Casa da Colina. A unica pessoa do mundo que odiava de verdade , agora que a mãe tinha falecido era a irmã. Desgostava do cunhado e da sobrinha de cinco anos e não tinha amigos." (pág.10)

" Em torno deles a casa meditava, se assentando e se agitando com um movimento que mais parecia um arrepio" (pág.89)

" Vá e encare seu amante,
  Vá e encare seu amante,
  Vá e encare seu amante,
  Como já fizemos antes....
(...)
  
 Nenhum deles ouviu, ela pensou com alegria; ninguém ouviu, além de mim" (pág.216)


"No live organism can continue for long to exist sanely under conditions of absolute reality; even larks and katydids are supposed, by some, to dream. Hill House, not sane, stood by itself against its hills, holding darkness within; it had stood so for eighty years and might stand for eighty more. Within, walls continued upright, bricks met neatly, floors were firm, and doors were sensibly shut; silence lay steadily against the wood and stone of Hill House, and whatever walked there, walked alone."

O trecho acima é do livro original e corresponde à primeira citação que abre os trechos página 7.
Ora bem, mais uma vez constato o que passo a vida a dizer aos meus alunos de leitura e literatura: traduções brasileiras são lixo.
Deturpam totalmente o livro, prejudicando o entendimento correto da narrativa, dando margem à falsas interpretações.
Por exemplo é diferente se dizer que o que "entrasse ali, entrava sozinho" e " o que andasse ali andava sozinho" que é o caso neste livro: quem andava ali,andava sozinho dentro da casa.
Já fui pesquisar a edição portuguesa e o que temos é :" e o que quer que por lá andasse,andava sozinho"
A ficha técnica abaixo é da edição da qual tirei o fragmento destacado em azul. Infelizmente minha edição portuguesa foi dada a emprestar a uma amigo, que ainda a tem  consigo e tive que usar a edição brasileira para a resenha. 
Ao fim da resenha, deixo o link do site onde o leitor poderá consultar pelo menos o primeiro capítulo decentemente sem comprometer o que de facto o autor escreveu.

A Maldição da Casa da Colina, é um daqueles livros que não podem faltar na biblioteca de um verdadeiro admirador de obras de horror psicológico.
Porque é disso que se trata. Não pensem que vão encontrar aqui o sobrenatural como se costuma ver nos filmes actuais, materializações, poltergeists, ou fantasmas perambulando pela casa.
Em 1959, quando livro foi lançado, causou bastante impacto,pois livros desta estirpe estavam a começar a ganhar força. Bem anterior a ele, Henry James em seu The turn of the Screw, já havia tocado no delicado assunto da sexualidade reprimida da preceptora em relação a seu patrão, e Shirley Jackson, volta a despoletar o assunto no presente livro.
Por trás de uma história em que o Dr. Montague especializado em estudos de fenômenos paranormais, reúne mais três pessoas Eleanor, Theodora e Luke, para passarem três meses na Casa da Colina a fim de constatarem fenômenos paranormais; está a história de Eleanor e suas frustrações inclusive sexuais.
Ora, já é sabido, que energias estagnadas são perigosas. 
Eleanor tem uma vida social miserável. Depois de onze anos a cuidar da mãe enferma, não teve muito tempo para grandes amizades.
Nada de importante e extraordinário aconteceu em sua vida, até entrar na Casa da Colina.
Pela primeira vez ela tem a percepção de que tem uma vida, tem algum valor, e é necessária.
 A Casa a quer, a chama, e quando ela se apercebe do quão importante isto é para si, não quer mais ir embora. Deseja ficar para sempre onde se sente em casa pela primeira vez na vida.
Alheia aos supostos fenômenos paranormais que a casa vai apresentando, ela quer ali estar. "Jornadas terminam no encontro de amantes" é uma das frases mais repetidas por Eleanor ao longo da narrativa. E penso que seu maior "amante" foi a Casa.
Em contrapartida, Theodora, seu oposto, representa a beleza, vida, exuberância, capaz de encantar Luke, o jovem herdeiro de Hill House, a ela é lhe indiferente se a Casa é assombrada ou não, pois tem para onde voltar quando a estadia terminar. Todos têm. Menos Eleanor, por isso a Casa da Colina será seu lar para sempre...
A loucura e a sanidade é tema recorrente na obra de Jackson, e aqui, neste livro a sanidade de Eleanor é quebrada no decorrer do tempo que  ela passa dentro e nos arredores da Casa.
Foi a escolhida por ser a mais frágil, desequilibrada, susceptível e solitária.
É exactamente este tipo de pessoas e energias que são "escolhidas" para liberar os fenômenos ditos paranormais.
Tudo é energia estagnada. Believe me.
Boa leitura! Aviso que a narrativa é lenta, sublimar, nem todos apreciarão, mas andem lá.... venham visitar Hill House....

Deixo aqui o link do site WOOK, para consulta da edição portuguesa

https://www.wook.pt/livro/a-maldicao-de-hill-house-shirley-jackson/21418991

O livro teve duas adaptações para o grande ecrã, uma em 1963, a mais interessante, e outra em 1999, duas longas horas de pura perda de tempo.
O canal Netflix já anunciou que está a preparar sua adaptação do livro, ainda sem estreia prevista.

Imagens da adaptação de 1963











 Imagens da adaptação de 1999:







Confiram o trailer de 1963: 


Confiram o trailer de 1999 no Link e assistam a chegada de Theodora à Mansão Hill House

Link:https://youtu.be/xsOVtbsMKtA



Confiram o audio book:



domingo, 22 de julho de 2018



              Estranha Presença-Sarah Waters




Estranha Presença, Sarah Waters, Record, 2010,Rio de Janeiro.
Título original: The Little Stranger.









The Little Stranger, Sarah Waters, Riverhead Books , 2009, UK


"Vi Hundreds Hall  pela primenria vez quando tinha 10 anos. Foi no verão depois da guerra quando os Ayres ainda tinham quase todo o seu dinheiro e eram gente importante no distrito." (pág.7)

" - Oh doutor, não é como uma casa normal, não é mesmo! É grande demais! A gente tem que andar uns 2 quilômetros para chegar a qualquer lugar. E é tão silenciosa que causa arrepios." ( pág.17)

" - É tão surpreendente assim, com essa família tão sombria? Afinal, a mente subliminar tem muitos cantos obscuros, infelizes. Imagine algo se soltando de um desses cantos." ( pág. 338)

" Nunca tentei lembrar Seeley, de sua outra e mais estranha teoria:de que Hundreds foi consumida por um germe obscuro, uma criatura das sombras, voraz, " estranha presença" gerada pelo inconsciente perturbado de alguém ligado com a própria casa.(...) imagino que o segredo está prestes a me ser revelado.Que verei o que Caroline viu e o reconhecerei. (pág. 441)


Cá estamos nós outra vez ás voltas com uma história de fantasmas.
Tipicamente inglês.
O enredo parece corriqueiro do gênero: uma grande propriedade centenária e decadente, Georgiana, diga-se, uma família sem posses vivendo isoladamente na casa, e uma " estranha presença" que só se faz notar quando quer e para quem quer.
Sarah Waters tem uma escrita fluída, calma, bem situada, sem rodeios desnecessários apesar de alguns capítulos serem longos e descritivos.
Temos o Dr Faraday, médico de família do condado, sendo chamado às pressas para assistir a uma criada da casa ( para usar um termo da época). Desta forma, Faraday é apanhado na teia da casa e da família sem que tenha vontade de escapar.
Apaixonado por Caroline, a filha dos Ayres, tenta ajudar a família a se reerguer, enquanto vai tentando um tratamento ao filho mais velho Roderick, também herdeiro de Hundreds Hall. retornado da guerra, e prestes a perder sua sanidade mental.
Aos poucos, vamos sendo introduzidos no ambiente sombrio e claustrofóbico da casa, seus segredos, revelações e ao relacionamento entre Faraday e Caroline, tão estranho quanto esperado.
O casamento anunciado de ambos, gera dúvidas entre os noivos, como se algo conspirasse para que não se pudessem unir.
A velha propriedade vai dando seus primeiros sinais de que mais alguém ou algo se instalou em seus cômodos, quando o filho mais velho começa a ver e ouvir sons e imagens que supostamente não lá estão, culminando no seu internamento em uma instituição psiquiátrica para nunca mais regressar.
Como em "And then there were none"de Agatha Crhistie, um a um os membros da família são levados a cometer atos dos quais não poderão mais safarem-se.
Mas ao contrário do livro citado, resta um, que luta incessantemente para descobrir o que de fato, ocorreu em Hundreds Hall bem debaixo do seu nariz, como se costuma dizer.
Em algumas passagens o romance lembra um outro grande escritor Henry James, em seu inesquecível " The turn of the Screw" quando em tom de conversa o doutor Seeley tenta alertar Faraday para as manifestações psíquicas com origem em sentimentos reprimidos, em contraposição à história de que um fantasma habitaria a casa.
Interessante a intertextualidade, ainda que implícita, pois realmente nos faz pensar se os fenômenos ocorridos na casa não foram libertados por anos e anos de repressão por um dos membros da famíla.
Recomendo a leitura com uma boa chávena de chá e biscoitos amanteigados.


Recentemente o livro foi adaptado para o grande ecrã, com estreia prevista para este ano. No elenco temos Ruth Wilson no papel de Caterine e Domhnall Gleeson como Dr. Faraday. Veja o trailer:





Assista também ao Booktrailer sobre The Little Stranger





Cartaz de lançamento do filme:


Banda Sonora:


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Viva para Contar- Lisa Gardner



              Viva para Contar- Lisa Gardner



Viva para contar, Lisa Gardner, Editora Novo Conceito, 2012, Ribeirão Preto.
Título original- Live to Tell, 2010, Bantam, USA.



"Imagino se esta será a noite em que ele finalmente vai me matar.
 Este é Evan, o meu filho.
 Ele tem oito anos. " (pág.27)

" O corpo da menina pendia, pendurado por uma corda amarrada em um gancho no meio do teto, com uma cadeira de escritório com rodízios nos pés caída de lado. O camisolão cirúrgico verde cobria seu corpo esquálido, e o corpo balançava lentamente, como se brincasse com o vento." (pág.265)

"_ Vamos ficar- disse a enfermeira sem nenhuma emoção na voz._ essa é a função do único sobrevivente. Precisamos viver para contar o que houve. (pág. 266)

" - A ala psiquiátrica infantil fica no oitavo andar - dizia Greg.- Sim, é uma unidade de isolamento. Cuidados específicos. Somos uma instituição reconhecida, Vic; tudo vai ficar bem." (pág. 366)


Sabem daqueles livros que uma pessoa começa a ler e não consegue deixar de o fazer ?
Este é um deles.
Se calhar essa é uma característica dos best sellers, mas este é diferente até no rótulo "best seller", sou meio avessa a eles, pois acho que um fenômeno de venda em massa há muito que se lhe diga, mas isso é assunto para uma outra postagem....
O presente livro tem uma narrativa poderosa, dinâmica, bem construída, entrelaçada, suspense na dose certa, e traz um tema muito delicado que é crianças psicóticas.
Crianças confinadas a uma Clínica Psiquiátrica, a Clínica de Avaliação Pediátrica de Boston, portadoras dos distúrbios mentais mais assustadores e difíceis de lidar, uma enfermeira, Danielle Burton, sobrevivente de um massacre em sua própria casa, tenta guiar estas crianças para a luz, através do diálogo e psicoterapia.
Mas nem sempre os resultados são os esperados.
Quando as primeiras mortes começam a ocorrer disseminando famílias inteiras, a investigação da detetive D.D.Warren leva a relacionar as mortes com a clínica onde trabalha Danielle.
Com o decorrer das investigações, histórias sinistras vão se revelando ao mesmo tempo que a tentativa de salvar as crianças da escuridão em que vivem se torna mais complicada e ineficaz.
Histórias que se cruzam, memórias enterradas, crianças perturbadas, luta pela sanidade mental, e um final surpreendente é o que vos espera em "Viva para Contar"
Recomendo para aquelas épocas em que tudo o que se quer é uma boa história que nos tire da rotina, mas cuidado, é um tanto quanto perturbadora.
Podem começar!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

   
       Livro dos Mortos- Patricia Cornwell

  
Livro dos Mortos, Patricia Cornwell, Companhia das Letras, 2010, São Paulo.
Título original- Book of the  death, 2007.

"O assassino, neste caso, desafia os precedentes e os perfis usuais. Ele os confunde. Até aciência se tornou uma fonte irritante de disputa- parece desafiá-los, mentir para eles, forçando Scarpetta e todos os demais a lembrar que a ciência nunca diz mentiras. Nunca comete erros. Nunca afasta deliberadamente alguém do caminho certo nem zomba de ninguém." (pág.18)

"Quer dizer que ele a forçou s ingerir álcool, talvez a tarde inteira, a noite toda,, até de manhãzinha, e ela estava tão apavorada que a comida não foi digerida? É isso que a senhora está oferecendo como explicação plausível?
- Já vi isso acontecer antes- responde Scarpetta." (pág.22)

Contrariando o último livro de Patricia Cornwell aqui postado, Causa Mortis, do qual gostei, mas não tanto, este retoma a linha de Lavoura de Corpos, Predador, Post Mortem, somente para citar alguns, nos quais a trama diabolicamente, por assim dizer ,truncada e inesperada fez deles romances inesquecíveis.E com certeza este também será.
Em LIvro dos Mortos, Scarpetta terá que passar por várias provações até encontrar a verdade sobre o caso da morte de Drew Martin, tenista, dezesseis anos, em Roma.
Este caso a levará a um sórdido labirinto de personagens verdadeiramente doentes e diabólicos como a velha doutora Self, a nova namorada de Marino Shandy, o próprio Marino completamente descontrolado a ponto de atacar Scarpetta, o agente funerário, o doutor Paulo Maroni, psiquiatra, cujo passado com a doutora Self será a chave para o mistério.
Todos os personagens estão a esconder algo importante neste caso tenebroso onde Will Rambo, o assassino, estrangulou e arrancou os olhos de Drew.
Ao contrário dos romances de Aghata Christie, nos quais os personagens sempre têm algo a esconder, como pequenas mentiras e segredos familiares, aqui, os segredos são sórdidos, as mentes desequilibradas, os personagens personificam o mal, como a doutora Self, e Shandy.
Vale à pena ler, mas preparem-se é preciso ter estômago, não por causadas mortes e autópsias, mas pelo lado negro das personagens.
E o que é pior, descobrir que elas realmente existem....

Nota: Nem tudo nesta narrativa é sordidez... como sempre, Kay Scarpetta faz uma pausa em algum restaurante, ou na sua própria cozinha é quando Patricia Cornwell nos brinda com ótimas escolhas feitas pela médica legista:

" Scarpetta toma um gole de um caríssimo Biondi Santi Brunello de 1996, que não é o vinho que teria escolhido, se tivesse sido consultada, e em geral ela é. Ela põe a taça de novo  na mesa sem tirar os olhos da foto junto a seu simples presunto de Parma com melão, que será seguido de robalo grelhado e por favas ao azeite de oliva. Quem sabe framboesas para a sobremesa, a menos que a conduta cada vez pior de Benton estrague seu apetite.E pode ser que consiga." (pág.32)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013



    Cemitério de Indigentes- Patricia Cornwell




Cemitério de Indigentes, Patricia Cornwell, Cia das Letras, 1997, São Paulo
Título Original- From potter's field, 1993.

"Encontraram um corpo no Central Park. Sexo feminino, branca, talvez na casa dos trinta anos. Parece que Gault resolveu comemorar o Natal em Nova York." (pág. 27)

 " 'Já faz muito tempo que trabalhamos juntos.' falei. E ele tem trabalhado como assistente da Unidade de Apoio a Investigação do FBI em Quantico, desde que ela foi criada.'
'Eu pensava que ela se chamava Unidade de Ciência Comportamental, como nos filmes.'
O FBI mudou de nome, mas o trabalho é o mesmo.'" (pág.57)

Temple Gault está novamente na ativa, desta vez em Nova York, e acaba de cometer um assassinato cruel contra uma rapariga que a princípio foi considerada sem teto pela aparência, roupas e pelos parcos pertences.
Seria enterrada num cemitério de indigentes, como tantos mortos anônimos na cidade mais violenta da América.
Seria, se não fosse a perspicácia da doutora Kay Scarpetta, médica legista chefe, que reparou em um pequeno detalhe em seus dentes, nomeadamente no desgaste dos dentes e procurou um dos dentistas do FBI.
Ao que parecia, ela tocava um instrumento de sopro sax, clarinete, ou outro até bem pouco tempo, então como teria morrido nas ruas se ainda tinha hábitos de higiene e de uma boa educação recentes?
A partir daí, Kay e sua equipe descem ao mais profundo labirinto de abuso e crueldade familiar que se possa imaginar.
Temple Gault afinal tinha uma irmã, e onde estaria ela já que não aparecia em casa dos pais há muito tempo?
Estariam os pais de Gault protegendo a família escondendo informações importantes sobre o monstro Gault?
E Carrie, estaria de volta para acabar o que começara no livro anterior, Lavoura de Corpos ?
Para descobrir, embarque nesta teia sangrenta onde Temple Gault gosta de prender suas vítimas.
Ms, de acordo com as intenções da doutora Scarpetta, não me parece que vá fazer isso por muito mais tempo...

domingo, 16 de dezembro de 2012




  Precisamos falar sobre o Kevin- Lionel Shriver





Precisamos falar sobre o Kevin, Lionel Shriver, Intrínseca, 2012, Rio de Janeiro
Título Original, We Need to Talk About Kevin, 2003.

"O que deu em nós? Éramos tão felizes! Então por que motivo retiramos todas as nossas fichas e as pusemos nessa aposta ridícula de ter um filho?" (pág. 22)

" E será que um feto tem sentimentos? Eu não tinha como antever que continuaria fazendo essa mesma pergunta a respeito de Kevin quinze anos depois." (pág.79)

" A drª Rhinestein não testou a possibilidade de existência de malícia, indiferença rancorosa,  ou maldade congênita. Se fosse possível, pergunto-me quantos peixes não atiraríamos de volta."(pág.92)

"Peguei-o na semana seguinte, lendo Robin Hood sozinho.Mais tarde ajudei vocês dois a comprar o primeiro conjunto de arco e flecha na loja de artigos esportivos.(...) (pág.281)

"Porém o que mais me admirou foram os seus olhos. Comumente, eles tinham o ar baço daquela película verde-azulada das maçãs por lavar- vazios e sem foco, (...)" (pág.405)

Ora, começar a falar deste livro é difícil por vários motivos, primeiro porque ainda me sinto nocauteada por ele, segundo porque ele é brilhante, terceiro porque admitindo ter um lado a quem defender, não foi com certeza o do pai de Kevin, bom moço, que eu escolhi. Isto me incomoda.
So, We Need to Talk about Kevin não é um livro fácil de ler, principalmente se o leitor não estiver acostumado com o lado real da vida, o leitor que por ventura espera ver aqui um mero drama familiar, pode abandoná-lo já agora, e nem sequer pegá-lo nas mãos.
Para ler "Precisamos falar sobre o Kevin, temos que estar despidos totalmente da hipocrisia social e convencional, porque assim que o livro será narrado pela mãe de Kevin, Eva, em missivas ao marido ausente.
O livro trata, sim de um drama familiar, mas é mais profundo que isso, trata da maldade pura de um menino, desde seu nascimento até seus dezoito anos, data em que seria transferido para um estabelecimento prisional para adultos,posto que foi detido aos dezesseis, após um massacre em sua escola.
Kevin desde o nascimento iniciou um braço de ferro poderosíssimo com a mãe, a qual por seu turno não ficou lá muito contente quando ele nasceu.
Ao longo de sua infância foi dando continuidade a seus instintos maléficos dentro da própria casa, desafiando os pais, e despertando a proteção de Frank, seu pai, que o perdoava sempre e sempre tinha uma palavra para defendê-lo.Ao chegar ao final do livro vamos descobrir que isso tudo foi perda de tempo e de que maneira!
Quando finalmente vai para a escola, Kevin não faz diferente, instigador de maus atos, abusa psicologicamente de colegas que se tornam seus escravos, com uma marcante presença é notado pela professora de inglês, que depois de muito o observar, partilha com a mãe a mesma opinião: Kevin é extremamente inteligente,e possui uma malícia e maldade dissimuladas,  mas reais.
Quando a irmãzinha de Kevin nasce, as  coisas começam realmente a complicar-se e tornarem-se mais sérias para a família.
O que terá Kevin guardado para o final?
O leitor observa atônito o desenrolar da narrativa e sente-se solidário com a mãe, Eva, por ser a única a ter os olhos abertos e a coragem de dizer o que pensa, o que sente, o que sente vontade de fazer com esse filho que se fosse por ela nem teria nascido. 
O livro aborda com diplomacia a questão da culpa dos pais na criação de pequenos monstros como Kevin, mas afinal de quem é mesmo a culpa? Não será a própria criança que nasce com a predisposição para a maldade, ou neste caso específico Kevin foi capaz de perceber a rejeição de sua mãe ainda  antes de seu nascimento? Se assim for, escolheu-a como alvo a torturar e fazer sofrer, como podemos ver ao longo da narrativa até seu final redentor???? Dá o que pensar, pelo menos a mim....
Cruzando a narrativa vamos tendo os relatos dos Massacres mais comentados na mídia, como o de Columbine, por exemplo, ficamos a saber do rol de atrocidades cometidas nas escolas por estudantes que acordaram um dia e foram armados para a escola a fim de matar e mataram.Casos assustadores que nem sequer tínhamos ouvido falar até então.
O livro mostra que devemos estar atentos aos sinais que certos adolescentes e crianças vão dando, em casa, na escola, para encaminhá-los a um profissional antes que seja tarde demais.
Mostra também que fatalmente, nem sempre isso se concretiza, não porque um membro da escola ou da família não faz o alerta, mas porque a pessoa envolvida quando confrontada, tem tal poder de dissimulação e inteligência que fica o dito pelo não dito, e o pior acontece.
Cuidado com as" máscaras", com os olhares frios e vazios, com a dificuldade de interação, com a aparente serenidade e o sorriso educado.
Pode esconder um "pitboy" ou um assassino mirim em série.
Pode esconder um Kevin que um dia, aos dez anos ,ganhou de seu pai um conjunto de arco e flecha....

O livro foi adaptado magistralmente para o cinema por Lynne Ramsey em 2011
Veja o trailer do premiadíssimo We Need to Talk about Kevin






domingo, 21 de outubro de 2012



           Trocas Macabras- Stephen King





Trocas Macabras, Stephen King, Francisco Alves, 1992, Rio de Janeiro.
Título original- Needful Things, 1991.

"Você não poderia te escolhido dia melhor para voltar a Castle Rock"(Pág.11)

"- Esta figurinha tem dois preços,Brian. Metade...e metade. Uma metade em dinheiro. A outra, um favor. Você me entende?"(Pág.36)

" O sininho acima da porta tilintou e duas outras senhoras entraram.
Em Coisas Necessárias, começava o primeiro dia completo de negócios."(pág.48)

Bem, mais uma vez vou manifestar meu desagrado com a tradução brasileira do título do livro,poderia muito bem ter sido traduzido como "Coisas Necessárias", o que se aproxima mais do enredo e ficaria melhor, esse título que o livro levou pode dar uma errada ideia sobre ele, e é por isso que eu continuo preferindo as edições portuguesas....Enfim....
Needful Things é o último livro de King em Castle Rock, o que é uma pena para os fãs, já que ela foi cenário de tantas outras histórias como por exemplo Cujo, O cão da Polaroid, Saco de Ossos, Zona Morta.
Nesta última história em Castle Rock, Leland Gaunt, vindo sabe-se lá de onde, instala-se na cidade e abre uma curiosa loja de antiguidades, por assim dizer. A loja, chamada Coisas Necessárias, vendia de tudo um pouco, sempre havia o objeto certo para cada morador da pequena e pacata cidade.
As fantasias, os desejos mais ocultos, são realizados com a compra de determinado objeto, cada morador, ou pelo menos os que visitam a loja, realiza seu sonho mais secreto com uma simples compra.
Porém há um preço a pagar....
Gaunt cobra seus clientes de duas formas, uma em dinheiro e a outra com um pequeno favor, pede sempre a cada um que faça uma  "inofensiva" travessura com a pessoa que ele determinar, nada grave, apenas uma partida, como no Halloween, gostosuras ou travessuras, mais ou menos isso.
Caso não cumpram sua parte do acordo, seus objetos ser-lhes-ão restituídos, e claro isso ninguém gostaria que acontecesse....
Tais travessuras, vão desencadear uma série de acontecimentos violentos e cruéis, semeando o caos e destruição em Castle Rock.
Como a Teoria do Caos, só que no mesmo local.
Mas afinal quem é de fato, Leland Gaunt? De onde veio? Seria ele um colecionador de antiguidades (aliás há uma forte semelhança entre ele e o personagem de Salem's Lot, o senhor Strawker)ou um colecionador de almas?
Com personagens interessantes, cada qual com sua microbiografia contada magistralmente pelo autor, o livro tem uma solidez invejável, as vidas dos personagens seus sonhos, frustrações, segredos são vasculhados ao pormenor o que confere a narrativa um tom acolhedor no meio ao horror.
Para quem vai deixar a cidade de vez, essa foi uma boa despedida!
Leitura super recomendada!

O livro foi adaptado para o cinema em 1993 veja a primeira parte:


terça-feira, 14 de agosto de 2012



  O Observador de Caracóis- Patricia Highsmith





O Observador de Caracóis, Patricia Highsmith, Teorema, 2000, Lisboa.
Título Original- Eleven, 1970.



Patricia Highsmith é uma das minhas escritoras prediletas há muitos anos.
Sua escrita é mesmo claustofóbica, tensa, inesperada, sufocante. Brilhante naquilo que se propõe.
Ainda não tinha publicado nada dela aqui no Hello Clarice porque estava a espera do momento em que estivesse pronta para lançar seus livros pois pretendo fazer em breve, um mês aqui no blog só dedicado a ela.
Tipo Mês Patricia Highsmith ou assim.
Comecei por "O Observador de Caracóis" porque tenho um especial carinho por esse livro, ele tem uma história pessoal engraçada pois eu literalmente tropecei no livro.
Foi mais ou menos assim: todos os anos desde que fui viver em Braga, fazia religiosamente uma visita à Feira do Livro com minha amiga Teresa.
Em 2002, ia com o propósito de visitar o Stand da Relógio D'Água porque minha amiga estava a procura de um livro da Clarice Lispector.
Sempre saíamos de lá com algum livro, mesmo quando andávamos pela feira com os pés gelados porque o recinto não era climatizado, e resmungávamos que não tinha nada de jeito.
Ora bem, alguns Stands tinham uma carpetezinha para confortar os coitados dos representantes que deviam amargar com o frio uma vez que ficavam parados o tempo todo. 
Quando passei pelo Stand da Livraria Minho vi de relance o "Observador de Caracóis" e aproximei-me da banca e não vi a carpete, tropecei e quase caí por cima dos livros. Foi assim que trouxe para casa o livro, em Março de 2002 e a Teresa, se não me falha a memória, também levava o seu "Perto do Coração Selvagem".

O livro consta de 11 contos, daí o título original, todos muito bons, escolhi quatro para dar uma pequena amostra do que espera o leitor.

1- O Observador de Caracóis.
"Era impossível saber-se quantos eram. Mas o Sr. Knoppert contou os caracóis que dormiam e rastejavam apenas pelo tecto e chegou a qualquer coisa como mil e cem ou mil e duzentos." (pág. 18)

"Sua conta bancária a multiplicar-se tão fácil e rapidamente como seus caracóis. Contou isso á mulher e esta rejubilou muito. Até lhe perdoou a ruína do estúdio e o cheiro a estragado, o cheiro a peixe que se estava a espalhar por todo o andar de cima. "(pág. 19)


Há um ditado espanhol de que gosto muito que diz: "Cria cuervos y te sacarán los ojos"
É exatamente neste ditado que penso quando leio O Observador de caracóis.
Sr. Knoppert, empregado de escritório em ascensão na empresa em que trabalha, tinha um curioso passatempo: gostava de observar caracóis.
Transformou o estúdio de sua casa numa autêntica "chocadeira". Passava horas com os caracóis, em número cada vez mais multiplicado, á revelia de sua esposa que reclamava do mau cheiro que vinha do cômodo.
Com o aumento de trabalho no escritório, Sr. Knoppert passa dezoito dias sem pôr os pés no estúdio.
Foi então que na décima nona noite, resolve ver como estariam seus "meninos".
É aí que Patricia Highsmith até então quietinha no seu canto, como o leitor, a observar, ajuda o Sr.Knoppert a abrir a porta do seu estúdio. 
E o insólito acontece.
Devo dizer que este conto ficaria muitíssimo bem num episódio de TWILIGHT ZONE , já sei, já sei, passo a vida a falar da série.... Após a leitura do conto, vão ver que ele ficaria mesmo bem a preto e branco num episódio da série.

2- Heroína

"A rapariga estava tão certa de que obteria o lugar, que apareceu ousadamente em Westchester, com a mala de viagem." (pág. 131)

" 'Vais começar tudo do princípio, Lucille' disse para consigo mesma.' Vais ter uma vida feliz útil, a partir de agora e esquecer tudo o que ficou para trás.' " (pág. 132)

Lucille é uma senhorita de vinte e um anos que após a morte da mãe três semanas antes, vai trabalhar como preceptora em uma casa de classe alta.
Antes trabalhava para um casal sem filhos mas não correu lá muito bem.
Aos poucos o texto deixa transparecer que sua mãe tinha problemas mentais e que ela tinha receio que isso lhe ocorresse a si, com o passar do tempo.
Ora, para o leitor atento e já habituado a estas incursões pelo universo literário com pessoas um nadinha perturbadas, vai logo desconfiar que o receio de Lucille já é uma realidade.
A família Christiansen estava bastante satisfeita com seu trabalho, as crianças gostavam dela, e tinha um bom salário.
Mas, Lucille não estava ainda satisfeita, ela desejava praticar um ato heróico, grandioso, desejava salvar a família de uma catástrofe qualquer para que nunca mais  tivesse que deixar aquela casa tão linda.
Mesmo que fosse ela própria a causá-la.
Highsmith neste conto parece ter um enorme conta gotas na mão e parágrafo sim, parágrafo não, solta uma gota que salpica medo por todos os lados. Um medo instintivo, como se a cada gota lançada o leitor desse um passo para trás à medida que Lucille aproxima-se de seu propósito final.
Um texto para se ler com um chazinho ao lado da mesinha de cabeceira, de preferência "Sono tranquilo" da Lipton.

3- Quando a esquadra estava em Mobile

" Nesta manhã, depois de Clark entrar, tinha enrolado o cabelo com o ferro e executado essa tarefa como nunca na sua vida, embora soubesse muito bem o que ia fazer a Clark. E teria metido na mala o ferro de frisar?" (pág. 62)

"Sentia-se feliz como uma cotovia, naquela manhã, com os sapatos melhores, que não eram nada práticos para viajar, julgava, com as biqueiras abertas e os saltos, mas lhe davam uma dessas exaltações!" (pág.63)

"Quando a esquadra estava em Mobile" é um daqueles contos cujo final deixa no leitor um estremecimento só de imaginar o que a personagem vai passar daí para frente.
Bem ao estilo inconfundível de Patricia Highsmith tipo "por essa é que não esperavas, my friend".
Geraldine, uma esposa que durante anos foi massacrada física e psicologicamente pelo marido, Clark, decide, numa manhã ensolarada, matá-lo.
Com um tecido embebido em clorofórmio, que depois será encharcado por todo o conteúdo do frasco, Geraldine imobiliza o marido, amarra-o, faz as malas e apanha a camioneta para a cidade. Durante o caminho vai desfiando seu passado e lembra com alegria os tempos em que a esquadra esteve em Mobile, um grande acontecimento da juventude.
Geraldine sentia-se melhor que nunca naquele dia, quando chegou à pequena cidade de Alistaire onde já havia estado em criança com o pai.
Após instalar-se num hotel resolve visitar um parque de diversões, lá encontra um velho amigo de infância, Frank. Ou será que não?
Quando estiver a ler o conto, é melhor estar sentado(a)...

4- A Tartaruga

" A mãe ria alegremente, com a cabeça atirada para trás- És doente! Olha para ti! Ainda é o meu bebezinho, com calções curtinhos...Ah! Ah!"(pág.46)

"Portanto a tartaruga era para o estufado." (pág. 48)

"Viu o focinho da tartaruga, muito grande, com a boca aberta, os olhos esbugalhados e cheios de dor." (pág. 56)

Uma mãe controladora e cruel. Um rapaz com o ódio reprimido. Uma tartaruga para o jantar. A tensão a subir, como numa panela de pressão sssssssssssss.
O resultado está à vista neste fantástico conto e meu preferido dos onze.
Victor é um rapaz de onze anos tratado pela mãe como se tivesse cinco. obrigado a recitar poemas dos livros infantis que ela ilustra quando as visitas vão á casa. Além disso estava sempre a chamá-lo "doente" "atrasado", obrigava-o a usar calções curtos e outras roupas inadequadas á idade do rapaz.E o esbofeteava as vezes.
Seus amigos riam-se constantemente de seus trajes.
Um dia a mãe traz para casa uma tartaruga, Vitor descobre-a na cozinha e pensa que é um presente para si, na realidade a tartaruga seria para um estufado que a mãe serviria a uns amigos. O rapaz afeiçoa-se a tartaruga e gostaria de mostrá-la a um amigo em troca de reconhecimento. Mas a mãe faz troça da intenção do filho e o deixa magoado.
Quando ela atira abruptamente no meio de uma conversa na cozinha o animal para dentro da panela a ferver, Vitor fica estupefato ao ver o sofrimento da tartaruga e a frieza da mãe como se nada fosse. Afinal para ela era o mesmo que atirar para dentro da panela uma lagosta ou siri era a coisa certa a fazer.
Nesta noite, Vitor sentiu-se estranho, vazio, não conseguiu adormecer, a imagem da tartaruga a sofrer não lhe saía da cabeça.
O ódio que sentia pela mãe guardado, estava prestes a explodir...
Teria Vitor conseguido o autocontrole de sempre para contar até dez e esperar a adrenalina baixar?
Eis a questão. 
Tic tac tic tac tic tac....